sexta-feira, 20 de abril de 2012

Raios me partam....

Há dias em que a revolta connosco mesmos é tão grande, que mais parece estarmos no meio de uma guerra. A nossa consciência ataca-nos de forma tão violenta que somos incapazes de disfarçar a nossa tristeza. Quando, apesar de toda a vontade de que temos de vencer, de fazer, de andar para a frente, fica-mos quedos e cedemos á facilidade da passividade, do não fazer, do não arriscar. Guardados na fortaleza dos nossos egos sustenta-mos a alma com achas do passado, guarda-mo-nos em rancores, em querelas antigas, em idiotices. Arranhar as feridas só resulta em que nunca curem! Assim, desenterrar o que de mal se passou só impede o perdão ao outro e sobretudo a nós. Quando pensamos que pudera-mos ser fonte de bem e fomos fonte de discórdia, fonte de exemplo e só fomos fonte de engano... Deus nos deu os dons que precisava-mos, mas o diabo nos gerou a confusão e utiliza-mo-los mal! Cheguei até aqui e julgo que posso dar cem vezes mais do que sempre dei e, no entanto, não o dou. Quantas pessoas, amigos de peito, colegas da vida eu desiludi? E eles, cada um sua maneira, estenderam a mão e eu não peguei nela! Perdoai-me, aqui vos peço, perdoai-me! Pedoa-me Tu Senhor! Vós, que mais que ninguém me conheceis! Bem sabeis o bem que queria ter feito, o bom que quero ser, a dádiva em que quero existir, e no entanto, a minha vida é tão cheia de tudo aquilo que eu não preciso para nada e tão vazia daquilo que realmente me dá vida! Perdoa-me, pois me revejo na imagem do servo inútil... Gastei grande parte da minha vida a construir a minha mansão na areia, veio o mar e o vento e ela caiu. E os dia que eu levei, o tempo que eu perdi. Sabes, ás vezes ainda me sento na praia a olhar para ela, como se existisse. Há dias que me iludo que sim, e ainda a faço maior, mas depois acordo e não está lá nada! Só vejo areia, mar e a imensidão. Então tenho a sensação de ter perdido tudo, tudo o que nunca tive e nunca nada me aprouve. Choro a perda de uma ilusão. Mas depois vens Tu, outra vez, cada dia, todos os dias. Vens devagar, sorrindo, de mansinho... Não me olhas com o olhar de condenação, mas de piedade, um olhar tão belo, tão profundo, tão cheio... Então eu sei que és Tu, por esse olhar... Porque me inunda e enche realmente. Sentas-te a meu lado e eu nem sempre olho para Ti, mas sei que estás lá, sinto o teu apoio, o teu silencio acolhedor...Eu falo-Te da praia, do chão que piso, da minha mansão e peço ajuda para acabar aquele recanto com grande pompa, para que todos vejam a bela moradia... Ás vezes passo meses a falar dela e Tu ao meu lado vais escutando... O nosso diálogo torna-se então num monólogo permanente, mas Tu não te aborreces. Quando finalmente, nas raras vezes que Te deixo falar, falas-me do mar, da imensidão. E de como me queres abraçar, e estar comigo nessa imensidão. Sabes, eu nunca compreendi que a casa que me queres dar é infindamente maior do que a ilusória mansão que eu construí na praia, que o que me queres dar supera qualquer ambição que eu jamais sonhei....

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