sábado, 21 de abril de 2012

Mártires - Esses suicidas lunáticos!

Hoje fui á feira, como aliás sempre que posso e não adormeço. É uma feira de bugigangas, da ladra como se diz. Como os livros estão fora de moda, empilham-se por lá como entulho á espera de algum transeunte que tenha «uma mesa para calçar»: se assim não é, pelo menos é o fim que lhes deseja o aspecto. A humidade do rio tolhia-me os ossos e caia uma chuva miudinha. Depois de ter parado a arfar angústias temporais e pragas Pedrinas com um vendedor, deparei-me, entre os «escombros», com uma obra dos anos cinquenta que ostentava sobre um fundo verde carregado o pomposo título: «Endireitai as veredas do Senhor!». Porém, o que mais me convenceu foi o autor: António Ferreira Gomes. Trata-se de uma compilação de homilias, discursos e  alocuções desse grande bispo do Porto. Está agora aqui comigo e parece gostar do novo abrigo, talvez contente por ter um pouco de atenção, talvez a única neste meio século de existência. Entre uma inspecção rápida saltou-me aos olhos a mensagem aos diocesanos por ocasião do Te Deum do encerramento do ano de 1953. Entre uma preocupação visível face ás perseguições dos Cristão vítimas dos totalitarismos comunistas por essa Europa fora, surge um ponto a respeito dos mártires e do culto do martírio. Serão eles loucos? Sedentos de sangue? Com horror á vida? - Pergunta D. António. E logo lhe responde, numa síntese austera e clara que vos cito agora: 
«Não! O Cristão ama a vida, embora lhe não sacrifique a vontade de viver; deseja o progresso e bem-estar do mundo, embora considere o espírito como sua primeira componente; não deseja a violência nem o sangue, embora não recue perante a Cruz. O príncipio e a razão de ser do mérito não está no sangue: está na caridade. Sem a caridade...é tudo em vão. É o amor que acende o holocausto; a matéria que arde é podridão, cinza e pó. "A razão ou essência da virtude assenta mais no bem do que no difícil", diz S. Tomás. O bem árduo, o bem martirial honra a Deus, porque é bem, bem potenciado ao máximo, e não porque é meramente atitude heróica: o orgulho e a obsessão também podem simular heroísmo e não honram a Deus, porque são vícios. Todo o mérito está na caridade que é o Amor e o sacrifício á Verdade e ao Bem. Com sangue ou sem sangue, o verdadeiro martírio é a imolação da alma a uma causa justa: não será a SSma. Virgem Rainha dos Mártires?...Ela, a Virgem branca de sangue, mas que tem sete espadas de amor doloroso sobre o coração...»
 D. António Ferreira Gomes    

...uma mensagem forte, para a vida, para a entrega e o sacrifício na caridade.
Jamais eu pensava que nesta manhã, por uma moeda de um euro que me aquecia o bolso, eu poderia tirar daí a minha reflexão do dia...

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