É verdade, já
lá vai algum tempo desde que escrevi aqui a última nota em tom de reflexão. Até
então muita coisa mudou! Outras tantas haveriam de permanecer igual. Recuperei
a condição pela qual sempre me perdi, esta vida de ser Teu. Tu és a minha
tentação e a minha perdição. Até podia ser a Anabela, mas era tempo a mais que
lhe faria perder e ela descobriria que o meu coração jamais lhe pertencera. No
fundo seria mais uma que me suportaria as mágoas enquanto não voltasse á
estrada. Quem sou eu afinal? Que identidade me destes que tanto me agustia
compreender. Eu poderia ser qualquer um. Poderia criar o meu enredo á volta de
uma complexa estrutura de ideais, poderia já estar casado, ter um rol de amigos
tabernais, uma mulher fogosa que me aquecesse o peito másculo á perdição original.
Agora que te recordo: Tinhas os cabelos longos, uma cara angelical e inocente,
um passo subtil que tanto contrastava com o meu desarranjo. O sorriso era, talvez,
o que melhor te definia: tão leve, tão…, tão feminino. Alegravas-me a alma.
Mulher, mulher que me importunas ainda… Temos uma história curiosa… inocentes e
felizes, riamos como perdidos daquele carro velho em que passeava-mos, tenho
saudades do teu braço no meu ombro e dos beijos que me davas enquanto eu guiava
aquele monte de sucata. Tínhamos o nosso mundo, tu compreendias-me tão bem, eu
queria-te tanto. Mal anoitecia, eu largava a enxada e corria para ti. Entregávamo-nos
á paixão, aquele vigor da juventude não perdoa ao servo mais ponderado… Hoje
não consigo dizer mais nada…